Enquanto Bolsonaro promete privatizar elétricas, setor pede tarifa menor na conta de luz

A equipe que cuida da área de energia para o candidato Jair Bolsonaro (PSL) apresentou uma posição favorável às privatizações do setor em encontro com investidores na segunda-feira. A eles, a campanha avisou, porém, que a última palavra será do presidenciável, que já se manifestou contrário à venda de elétricas. Com pauta bem diferente, um grupo de lideranças do setor, liderado pelo deputado Leonardo Quintão (MDB-MG), foi recebido no mesmo dia por Bolsonaro. Ao candidato, o grupo pediu adoção de políticas mais intervencionistas, como redução das tarifas. Quintão, inclusive, reafirmou ser contra a ampla privatização das elétricas.

Segundo apurou o Estadão/Broadcast, o consultor de energia Luciano Castro foi o responsável pelo convite aos investidores. Eles tiveram oportunidade de fazer perguntas ao consultor em uma teleconferência por telefone, em inglês. Castro deixou claro que a maior preocupação é com a Amazonas Energia, distribuidora cujo leilão, marcado para esta semana, foi adiado para novembro. A empresa é uma das mais deficitárias do grupo e corre o risco de ser liquidada.

Castro disse que o posicionamento de Bolsonaro é favorável à venda de todas as distribuidoras, inclusive a Ceal (Alagoas), preferencialmente ainda neste ano. Não há, no entanto, nada definido a respeito dos ativos de geração e transmissão. Além disso, a meta é tornar a Eletrobras mais eficiente, mas ainda faltam informações sobre a real condição da empresa. A palavra final, segundo ele, será de Bolsonaro que, neste momento, está focado em vencer as eleições.

Na teleconferência, segundo investidores, Castro disse haver simpatia pelo modelo proposto pelo governo Temer, que previa a transformação da Eletrobrás em uma corporação (sem a figura de um controlador0. Bolsonaro também teria preferência pelo modelo de manutenção de ações do tipo golden share, que garantem direitos especiais e vetos ao governo em algumas questões. A chance de venda de 100% das ações da companhia é considerada remota. Ao mesmo tempo, há uma visão de que a situação da Eletrobrás nas condições atuais é insustentável.

A reportagem procurou Luciano Castro, mas ele não fez comentários sobre o call, nem sobre a agenda de campanha de Bolsonaro.

Outras sugestões

Já no Rio de Janeiro, na casa do candidato Jair Bolsonaro, se reuniram, além de Quintão, o diretor-geral da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), André Pepitone; o diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), Adriano Pires; o advogado Gustavo de Marchi, do escritório Décio Freire Advogados; o vice-presidente de Assuntos Regulatórios e Estratégia da Energisa, Alexandre Nogueira; o diretor da Cemig, Alexandre Ramos Peixoto; e o presidente da Associação Brasileira das Empresas Distribuidoras de Gás Canalizado (Abegas), Augusto Salomon.

A reunião foi agendada pelo deputado Onyx Lorenzoni (DEM-RS), cotado para ser ministro-chefe da Casa Civil caso Bolsonaro seja eleito. Segundo o deputado Leonardo Quintão, o grupo apresentou sugestões para a área em um eventual governo.

O grupo liderado pelo deputado apresentou uma pauta distinta da debatida com os investidores ao trazer sugestões de adoção de políticas sobre concorrência e concentração no setor elétrico, como a redução das tarifas de energia e criação do vale-gás, que permitiria aos beneficiários do Bolsa Família tenham subsídio de 50% no preço do botijão.

Quintão deixou claro que continua com uma visão restrita das privatizações. Ele atuou contra o projeto de lei que previa a privatização da Eletrobrás, que não chegou a ser votado na Câmara. Ele disse ainda que é favorável apenas à venda das empresas deficitárias, caso das distribuidoras, e das Sociedades de Propósito Específico (SPEs). “Sou contra a privatização de Furnas”, disse.

Uma das prioridades do deputado, que não foi reeleito e é o primeiro suplente da bancada, é costurar um “encontro de contas” entre o governo federal e a Cemig, um tema que estava no projeto de lei que estava no Senado, mas foi rejeitado. “É preciso começar isso tudo de novo no ano que vem. A União tem uma dívida com a Cemig de quase R$ 5 bilhões, e a Cemig está sendo cobrada pela União em R$ 4 bilhões. Então, um encontro de contas tem que ser feito”, afirmou.

Mesmo sem ter sido reeleito, o deputado disse que não pediu nenhum cargo para Bolsonaro. “Não discutimos isso, não. Primeiro tem que ganhar a eleição. Eu perdi a eleição e sou primeiro suplente. Mas o que pudermos fazer para ajudar, vamos ajudar. Não tenho nenhum pleito de ocupar cargo, não”, afirmou. “Mas sou um entusiasta da área. Sou muito ligado e estudo muito essas áreas de mineração e energia. São as áreas que a gente conhece e a própria equipe pediu para trazermos sugestões.”

Quintão disse que tem aproximado o setor produtivo de Bolsonaro. “Levei também o setor siderúrgico, que representa também várias mineradoras”, disse o deputado, que é coordenador da frente parlamentar evangélica. O deputado disse também ter levado representantes das indústrias de calçados, setor têxtil, construção civil, automobilístico e químico. “Todos foram declarar apoio ao Bolsonaro e levar sugestões”, disse.

FONTE: Estadão